"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."

Os Lusíadas, Luís de Camões
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terça-feira, 3 de março de 2009

Sugestões Culturais: “Súplica de D. Inês de Castro” apresentado no Museu de Arte Antiga

inêscastro O quadro “Súplica de D. Inês de Castro”, do pintor Vieira Portuense, adquirido em 2008 num leilão, em Paris, por um empresário português em parceria com o Estado, vai ser apresentado quinta-feira, no Museu Nacional de Arte Antiga. A obra foi arrematada em Junho do ano passado por 210 mil euros. O coleccionador, que até hoje mantém o anonimato, avançou na altura com a compra, na ausência de liquidez do Ministério da Cultura que se comprometeu a encontrar um financiador para o quadro. Esta tarde em conferência de imprensa, o ministro Pinto Ribeiro, deverá anunciar quem é esse financiador. A “Súplica de D. Inês de Castro” é uma tela que vem completar as colecções nacionais, diz o director do Museu de Arte Antiga, Paulo Henriques, que irá receber o quadro em regime de comodato. O director explica que a obra de Vieira Portuense saiu de Portugal pelas mãos da família real no século XIX.

In Página 1 de 26/02/2009

domingo, 1 de março de 2009

Monumentos em Nome do Amor: Quinta das Lágrimas

| adpatado por: Catarina Faria

Embora não tenha sido construída em nome do amor, foi o cenário do amor mais bonito quer Portugal poderia ter assistido.

A Quinta das Lágrimas, situada na margem esquerda do Mondego em Coimbra e cuja origem se perde nos séculos, foi o cenário dos amores proibidos do príncipe D. Pedro e Inês de Castro

Diz a lenda que foi na Quinta das Lágrimas que D. Inês chorou pela última vez, enquanto era trespassada pelos punhais dos fidalgos a quem o rei Afonso IV ordenara a sua morte. As lágrimas então derramadas inspiraram Luís de Camões a criar o nome de Fonte das Lágrimas e Fonte dos Amores e muitos outros escritores a consagrar o amor eterno de Pedro e Inês.

O palácio ali existente foi construído no século XVIII mas, devido a um incêndio, a casa apresenta arquitectura do século XIX

Ao longo do tempo várias ilustres personalidades foram passando por este local. Uma das mais conhecidas foi Arthur Wellesley, duque de Wellington, comandante das tropas que atacaram as forças invasoras de Napoleão, que plantou duas sequóias, hoje com 190 anos. 

O jardim foi idealizado no século XIX, seguindo uma tendência da época, a da constituição de uma espécie de Museu Vegetal, onde estariam representadas espécies de todo o mundo.

Actualmente, no Palácio da Quinta das Lágrimas, está instalado um hotel de luxo da cadeia Relais & Châteaux.

Sendo um notável hotel, localizado numa propriedade arborizada e repleta de lagos onde a memória romântica ainda permanece do trágico enlace amoroso entre o Príncipe Real D. Pedro e a bela Inês de Castro condenada à morte por ordem do Rei e, até hoje, chorada e cantada por poetas.

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FONTES:

Quinta das Lágrimas - Inês de Castro: http://eb23frazao-ines-8b.blogs.sapo.pt/2093.html
Fotos:
Autores do blogue

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sugestão de Leitura: “Memória de Inês de Castro” de António Cândido Franco

Sobre o autor: António Cândido Franco nasceu, em Lisboa, a António Cândido Franco13 de Julho de 1956. Com uma Licenciatura em Literatura Românica, apresentou uma tese de Mestrado intitulada Exercícios sobre o Imaginário Cabo-Verdeano (simbologia telúrico-marítima em Manuel Lopes) publicada pela editora Pendor, em 1996. A sua tese de Doutoramento, apresentada em 1997 na Universidade de Évora (onde exercia funções docentes), foi publicada pela Imprensa Nacional em 2000 com o título A Literatura de Teixeira de Pascoaes. Conferencista, prefaciador e apresentador de livros, publicou  numerosos ensaios, dispersos por jornais e revistas, designadamente a revista Colóquio/Letras. Em 1999, recebeu o Prémio Revelação Ensaio, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores/Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, com a obra Eleanor na Serra de Pascoaes (ed. Átrio). Grande estudioso da obra de Teixeira de Pascoaes, é um dos maiores ensaístas portugueses contemporâneos.  Actualmente, é Professor na Universidade de Évora.

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Há qualquer coisa de miraculoso no encontro em que Pedro repara pela primeira vez, com atenção, em Inês. O infante tinha chegado da Atouguia, com seu ar despreocupado, meio aborrecido e cheio de uma sede insaciável. Foi Inês que preparou na cozinha a bebida de Pedro. Ele agradeceu ligeiramente com a cabeça e bebeu, sem reparar em mais nada. Quando ergueu a cabeça e fitou o rosto de Inês, reparou, intrigado, que os cabelos desta pareciam despedir labaredas. Era um lume que crepitava em silêncio. Foi então que Inês, de forma inesperada, lhe encostou a ponta dos dedos na face. Todas as margens do ser, a esse contacto, foram incendiadas, os diques derrubados. Foi, porém, um gesto inocente, quase pueril. A célebre gaguez de Pedro pode datar desse instante. O amor foi nele o terror dum susto. [...]

Inês ganhou Pedro e depois a própria coroa portuguesa, não por um privilégio de matrimónio, mas pelo privilégio humano dos seus próprios dons. Ela encarnava qualidades humanas raras e todo o seu corpo era a expressão silenciosa das mais altas virtudes do homem. [...]

- Senhora, abri, que é El-Rei de Portugal.

Inês estava junto da janela onde esvoaçava o lençol branco do seu enxoval. Mandou Fátima ir passear pela alameda com as crianças. A solidão do aposento apareceu-lhe como a expressão do seu sacrifício. Preparava-se para a morte como se tinha antes preparado para o amor. Penteou-se e vestiu-se de branco. Inês vestiu-se de branco para morrer e pôs nas mãos um colar de pedras que Pedro lhe dera. E fê-lo, não para interpelar Afonso, mas para mostrar à morte a sua aliança com a vida. [...]

A entrada do rei e dos seus conselheiros nos aposentos de Inês foi intempestiva. Vinham sobretudo preparados para um longo desacordo com Inês, mas a gelada indiferença desta petrificou-lhes os intentos. Todas as tradicionais hesitações atribuídas a Afonso no momento de assassinar Inês devem-se justamente à inesperada atitude dela: nem filhos nem palavras. É fácil vencer um opositor armado e feroz, mas é difícil matar uma mulher que, em vez de brandir argumentos, nos apresenta um vestido branco cheio de silêncio. [...]

O sol declinava no horizonte. Afonso trazia enfim a mão manchada de sangue e os olhos baixos. [...]

Pedro, de madrugada, quando chegou à alameda dos olhos de água, onde hoje é a fonte dos amores, avistou o lençol branco a esvoaçar ao vento. Teve de arrombar sucessivas portas fechadas, no palácio deserto, enquanto gritava desalmadamente por Inês. Quando viu o corpo de Inês desfeito em sangue, a voz ficou-lhe presa na garganta. A célebre gaguez de Pedro, tão falada por Femão Lopes, não era congénita. A gaguez de Pedro foi a consequência imediata da morte de Inês. Se o amor, em vida de Inês, lhe tirou o significado das palavras, o amor, com a morte, tirou-lhe para sempre a fala. Era de madrugada e em Coimbra levantavam-se os primeiros rumores sobre a morte de Inês de Castro. Amanheceu baço e sem luz aquilo que foi o dia.

António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, Lisboa, 1990 
http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/arquivo/2005_01.html#175236

sábado, 14 de fevereiro de 2009

“A Morte O Amor A Vida” de Paul Eluard

| seleccionado por: Bruno Fernandes

Neste Dia de São Valentim, dia dedicado a todos os namorados e enamorados, seleccionamos este poema Paul Eluard.

Julguei que podia quebrar a profundeza a
                                                               [imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue
Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro
                                                             [nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula
Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de
                                                                      [estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
                                                                     [para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
                                                               [as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
                                                                         [tempos
Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"

Fontes: 

Poema: Citador -  http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200811100407
Foto: “Se me é negado o amor…” – Sónia Cristina Carvalho - http://olhares.aeiou.pt/se_me_e_negado_o_amor_foto964704.html

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

“Amor” de Jorge de Sena

Aproxima-se o chamado "Dia dos namorados", o Dia de S.Valentim, em que supostamente se celebra o amor. Deixando de lado o que todos sabemos do aproveitamento comercial que disso se faz, o que menoriza o sentimento, deixamos aqui um belo poema de amor de Jorge de Sena:

AMOR

Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem
como não amam se de amor não pensam
os que amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante
e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja
o que não temos nesse amor que amamos
mas só amamos quando amamos ao acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,
amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo
o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente
o oleoso repetir das carnes que se roçam
até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.
Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar não amam.

Jorge de Sena, in Peregrinatio ad loca infecta, Portugália, Lisboa, 1969 (poema de 1965)

Fontes:
Foto:
Graça Loureiro “É Urgente o Amor”
http://olhares.aeiou.pt/e_urgente_o_amor_foto927404.html

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sugestão de Leitura: “A Rainha Arcaica” de Ivan Junqueira

Ana Salomé ofereceu-nos outra informação valiosa, esta dada por intermédio de Nuno Dempster (a quem agradecemos, o poema e não só): A Rainha Arcaica da autoria de Ivan Junqueira, que se debruça sobre a temática dos amores inesianos.

V           EU ERA MOÇA, MENINA...

Eu era moça, menina, em meus paços
muito honrada, por nome Inês de Castro
quando o vi no Mondego, inquieto e esgalgo,
a sitiar-me a fímbria das espáduas.
Era o infante meu primo, ajaezado,
o dinasta afonsino com seus gládios,
seus cães de fino faro em meu encalço
no afã de decifrar-me a foz do orgasmo.
Ele se veio a mim como quem sabe
que à fêmea apraz o macho sem alarde.
Nada pediu. Quis-me. Fiz-lhe a vontade.
E a sorte, bem sabeis, lançada estava
quando o vi no Mondego (e já era tarde
para o perdão de Portugal e o Algarve).

VI      INÊS E CONSTANÇA

Foi de Castela que vieram as duas
ao encontro do infante e do infortúnio:
Constança, a que jamais lhe aprouve à gula;
e a outra, que lhe coube como adúltera.
Vieram ambas de Castela: uma,
de alta linhagem e trânsfuga luxúria;
e Inês, a de Galiza e coma ruiva,
também fidalga, mas de berço avulso.
E desde logo perceberam as duas
que dele ao todo não seriam nunca,
nem nesta terra nem em parte alguma,
nem como esposas nem rainhas suas:
a que desceu antes de sê-lo ao túmulo
e a que somente o foi quando defunta.

IX            MORTE DE INÊS

Foram dois, sim, que deles guardo a injúria
sepulta neste pélago do mundo,
onde mais nada me apetece ou pulsa
e em vão meus lábios rezam a pedras mudas
Sim, foram dois, eu sei, alfanje em punho
que se soltaram contra mim, aduncos,
com garras de rapina e cenho duro
tão logo el-rei foi surdo às minhas súplicas
e à fala que lhe fiz entre soluços,
pondo ali de redor meus três miúdos.
À vista deles trespassou-me o gume
como um dilúvio de aguilhões e acúleos.
Que dor, infante, a de não mais ser tua!
E foi então que a noite me fez sua.

XII           VAI NUMAS ANDAS...

            . . . sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre círios acesos.

                        Femão Lopes, Crónica de D. Pedro I, cap. XLIV


Por entre a luz dos círios, sob a névoa,
navega o féretro de uma donzela.
Vai numas andas que os fidalgos levam
em lento périplo ao redor das glebas.
E voa assim por dezassete léguas
que entre Alcobaça e as serras se enovelam.
Vai leve o séquito em seu curso aéreo
ao som do réquiem que sussurram os clérigos.
Flameja a infanta sobre um mar de flechas
e nave adentro flui rumo à capela,
cerca de Pedro, que na pedra a espera
e em pedra a entalha da coroa aos pés.
Descansa Inês, longe dos reis terrestres,
Pois que outro reino agora te celebra.

XIII           INÊS, RAINHA PÓSTUMA

Estavas, linda Inês, póstuma e lívida,
como se a vida em ti não mais fluísse,
mas quem te contemplasse saberia
que eras enfim o nervo do conflito:
não tanto aquele que te fez a vítima
dos reis e das intrigas da península,
mas o que dentro de ti mesma urdiram
teu sangue abrupto e teu amor sem bridas.
Por isso é que o sossego não te cinge
nem te refreia o frémito do instinto
que ainda fustiga o flanco de tuas cinzas.
Ali, na pedra, és de ti própria a epígrafe:
princípio e fim da mísera e mesquinha
que despois de ser morta foy Rainha.

Ivan Junqueira

In A Rainha Arcaica, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1980

Também disponível:
http://nocturnocomgatos.weblog.com.pt/arquivo/2005_01.html#175236

“Inês” de Nuno Dempster

Nós gostamos muito da Ana Salomé (www.cicio.blogspot.com) – como poetisa e como ser humano – e, por isso, convidámo-la a escrever um poema sobre os amores de Pedro e Inês para publicarmos no nosso blogue. Ela, como seria de esperar, acolheu-nos gentilmente. Entrementes, deu-nos informações preciosas sobre outros escritores. Assim, deixamos aqui um poema inédito que, nas palavras de Ana Salomé, "é perturbante e que implica o plano histórico com um plano pessoal", poema de um poeta açoriano, que lançou agora o livro Dispersão – Poesia Reunida, chamado Nuno Dempster. http://esquerda-da-virgula.blogspot.com

Inês,
finjo-te devorada pela sombra
de Pedro a que, por quanto em vida,
foste fiel, Inês atormentada
de nunca ter morrido.
Se te fingisse em outro nome,
tudo teria sido fácil,
não haveria assaltos em que eu era
violador de túmulos
na Igreja de Alcobaça,
provavelmente havia na varanda
sardinheiras vermelhas,
eu não imaginava o teu destino
e os carros passariam tranquilos.

Nuno Dempster
«Obituário 6»

In A esquerda da vírgula : http://esquerda-da-virgula.blogspot.com/2009/01/obiturio-6.html